Novo ano, novos desafios: como lidar com as chuvas?

2026 está chegando. É tempo de planos, expectativas e, também, de encarar realidades que já não podem mais ser ignoradas. Entre elas, uma se torna cada vez mais evidente a cada novo ano: as chuvas estão mais intensas, mais concentradas e mais recorrentes. Com elas, retorna a preocupação de sempre: alagamentos nas marginais, transtornos e prejuízos que parecem se repetir a cada verão.
Diante desse cenário, talvez a pergunta não deva ser apenas “que obra fazer para evitar as enchentes?”, mas sim “como aprender a lidar melhor com as chuvas?”. Cidades do mundo inteiro já perceberam que insistir apenas em canalizar a água e fazê-la correr rapidamente para os rios não é suficiente. É nesse contexto que surge o conceito das chamadas “cidades-esponja”, desenvolvido pelo arquiteto paisagista chinês Kongjian Yu — referência mundial no tema, falecido em 2025.
De forma simples, uma cidade-esponja é aquela que absorve a água da chuva em vez de apenas expulsá-la. Ela utiliza o solo, os espaços verdes, as praças, os parques e até as ruas como aliados para reter, infiltrar e desacelerar a água. O resultado é menos enchentes, menos sobrecarga nos rios e mais qualidade ambiental.
Para isso, é preciso ser audacioso no planejamento urbano. Por que não repensar as ruas e marginais ao lado de rios e córregos? Em vez de tratá-las apenas como vias de passagem de veículos, será que uma das faixas das avenidas poderia ser transformada em parques lineares? Ou seja, espaços verdes que acolhem a água quando o rio sobe e, no restante do tempo, servem à população. Por que não permitir que, aos finais de semana, essas áreas se tornem parques urbanos, oferecendo lazer, convivência e ajudando a reduzir as ilhas de calor? Afinal, em muitos casos, existem ruas paralelas que continuam cumprindo a função viária.
Também vale olhar com atenção para áreas já conhecidas da cidade. Terrenos próximos a parques, como o entorno do Parque Ecológico, por exemplo, podem ser planejados como parques alagáveis: áreas preparadas para receber o excesso de água das chuvas mais fortes, protegendo o restante da cidade e, ao mesmo tempo, criando novos espaços de lazer e contato com a natureza.
Os jardins de chuva entram como outra peça importante desse quebra-cabeça. Espalhados por praças, canteiros, grandes cruzamentos de avenidas pavimentadas, calçadas e áreas públicas, eles ajudam a captar e infiltrar a água onde ela cai. Isso evita que toda a chuva seja rapidamente escoada dos telhados para terrenos cimentados e das ruas asfaltadas diretamente para os rios. Assim, a cidade ganha tempo, reduz alagamentos e melhora seu microclima.
Pensar a cidade dessa forma não é apenas uma questão ambiental; é uma escolha urbana. Uma cidade que cuida da água e dos seus espaços naturais tende a ser, também, uma cidade mais agradável para caminhar, pedalar e conviver. Aos poucos, o espaço público deixa de ser dominado exclusivamente pelos carros e passa a priorizar as pessoas.

Marcelo Tadeu Mancini – Arquiteto e Urbanista