As Camélias e os Abolicionistas: O Símbolo Secreto da Liberdade no Brasil Imperial

A camélia branca não era flor — era coragem disfarçada de silêncio.
A história da abolição da escravatura no Brasil é costurada por gestos de coragem silenciosa, articulações discretas e símbolos que carregaram, no perfume da resistência, o sonho da liberdade. Entre esses símbolos, nenhum floresceu com tanta força quanto a camélia, transformada em emblema secreto dos abolicionistas, especialmente no Rio de Janeiro, nos anos que antecederam a Lei Áurea.
Mais do que uma flor, a camélia tornou-se um código, um sinal político, uma declaração silenciosa de que a dignidade humana não poderia ser adiada.
Em um período marcado pela vigilância do Estado imperial, pela repressão a líderes da causa negra e por interesses econômicos que sustentavam a escravidão, os abolicionistas encontraram um meio delicado — porém poderoso — de se identificar e se reconhecer: a camélia branca na lapela.
Ela representava pureza, esperança, mas também firmeza e resistência. Usar a flor era comprometer-se com uma causa que podia custar posições, reputações e até a liberdade. Era dizer, sem falar: “estamos juntos”.
Jornalistas, intelectuais, professores, artistas, advogados e trabalhadores livres adotaram o símbolo. Nas ruas do Rio, um broche com uma camélia valia mais do que um discurso inflamado — era o gesto político possível dentro do risco político permitido.
O coração simbólico desse movimento foi o famoso Sítio das Camélias, chácara de Domingos José Lisboa, conhecido como o “Barão de Camélias”. Ali, milhares de flores eram cultivadas. Ali também, discretamente, escravizados fugidos encontravam abrigo, apoio jurídico e reorganização de vida.
Era um quilombo urbano, moderno, silencioso.
O perfume das camélias se espalhava pela cidade, e com ele se espalhava o pacto moral da resistência. Não havia propaganda, não havia holofotes; havia coragem. E havia a flor.
Com o avanço da campanha abolicionista, consolidou-se um gesto de reconhecimento simbólico: a “Ordem da Camélia Branca”, condecoração moral dirigida àqueles que se destacavam na defesa da liberdade.
Não era medalha; era missão.
Não era título; era responsabilidade.
Entre os “condecorados” estavam gigantes como José do Patrocínio, Luís Gama, André Rebouças e tantas outras figuras que pagaram caro por sonhar com um país mais justo.
Ao assinar a Lei Áurea, a princesa Isabel recebeu camélias brancas como gesto de gratidão. Era o reconhecimento de que, após décadas de luta, o país começava a romper o cimento da opressão — ainda que tardiamente, e ainda que a igualdade plena permanecesse distante.
A camélia, antes clandestina, tornava-se símbolo nacional da liberdade.
Hoje, ao revisitarmos a história da camélia no movimento abolicionista, não estamos apenas olhando para trás. Estamos nos olhando no espelho.
O Brasil tem dívidas históricas profundas, feridas abertas e desigualdades que ainda ecoam o passado escravocrata. A camélia, nesse contexto, funciona como lembrete: a abolição jurídica aconteceu em 1888, mas a abolição moral, social e cultural ainda é tarefa do presente.
Ela nos convoca ao trabalho ético de não naturalizar violências, de enfrentar o racismo estrutural e de reconhecer a contribuição central da população negra na formação do país.
A história das camélias nos ensina que o abolicionismo não é apenas um capítulo encerrado — é um valor permanente, uma postura ética que precisa atravessar gerações. Ser abolicionista hoje significa ser intransigente contra o racismo, combater injustiças e afirmar, todos os dias, que a dignidade humana é inegociável.
Que sejamos, portanto, abolicionistas de ontem, de hoje e de sempre.
Se no século XIX o Brasil precisava de abolicionistas — homens e mulheres que enfrentaram a ordem escravocrata, romperam silêncios e desafiaram o poder estabelecido —, no século XXI o país precisa, com a mesma urgência, de guerreiros contra o racismo. O abolicionista de ontem era aquele que lutava contra as correntes visíveis; o antirracista de hoje é o que luta contra as correntes invisíveis, estruturais, que ainda insistem em sobreviver nos gestos, nas instituições, nas oportunidades negadas e nos preconceitos naturalizados. A abolição jurídica foi apenas o primeiro passo. A abolição plena — social, cultural e moral — depende de cada um de nós. Assim como os abolicionistas não se calaram diante da escravidão, os antirracistas não podem se calar diante do racismo
E, ao escrever estas linhas, carrego comigo uma honra que jamais imaginei receber. Mesmo não merecendo, fui agraciado com uma camélia, símbolo maior dessa luta, entregue pelas mãos do Dr. Aguinaldo Benedito, membro do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra (CPDCN) de São Paulo.
A homenagem ocorreu em um evento profundamente marcante, no qual seis pessoas negras de Matão foram reconhecidas e tiveram seus retratos afixados no Mural da Comunidade Negra — um espaço de memória, valorização e justiça histórica.
Receber aquela camélia, naquele ambiente de ancestralidade e reconhecimento, não foi um prêmio: foi um chamado. Um compromisso moral de seguir lutando, respeitando e defendendo a igualdade racial em todas as suas dimensões.
Que essa camélia — tão maior do que eu — seja para sempre um convite para continuar florescendo coragem, humanidade e justiça em cada gesto.
Porque o Brasil só será verdadeiramente livre quando todos formos, de fato e de coração, abolicionistas.

Paulo Bernardi,
é Presidente da Câmara Municipal de Matão – Vereador (MDB)