A Radicalidade do Cristo: 50 Anos de Sacerdócio


A cada vez que me proponho a mergulhar na personalidade do Padre Bragheto, como ele ficou comumente conhecido na cidade de Dobrada, aprendo — e, mais que isso, busco aprender — um pouco mais sobre o indivíduo que o tornou distinto e, ao mesmo tempo, comum a um homem que, na década de 1970, se propôs a viver o seu ministério sacerdotal pautado na mais profunda radicalidade que o Cristo representa, ou seja, junto ao seu povo sofrido.

No momento histórico em que o país passava por uma série de rupturas e transições nos campos político, cultural, econômico e, por que não dizer, religioso, a vivência desse sacerdócio por si só representava um período de transformações. Mas, como o próprio Cristo diz no Evangelho de Mateus:

“Não pensem que eu vim trazer paz à Terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão seus próprios familiares. Quem ama seu pai e sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim. Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. Quem procura conservar a própria vida vai perdê-la. E quem perde sua vida por causa de mim vai encontrá-la.” (Mt 10, 34–39, Bíblia Edição Pastoral, 1990, p. 124–125).

Em resumo, essa mensagem de Jesus exige uma escolha radical, que leva a conflitos, perseguições, mas implica, acima de tudo, a vivência de uma fé que exige entrega total e coloca o Reino de Deus em prática aqui na Terra.


O Contexto da Teologia da Libertação

Lendo a autobiografia do Padre Bragheto, encontramos a história de seu chamado, que se consolida por volta dos 11 anos, em meio às mudanças na própria Igreja após o Concílio Vaticano II. Até então, predominava o que Ralph Della Cava define como catolicismo romanizado: uma Igreja com poder centralizado em Roma, rígida na adesão a ritos e práticas alinhadas à uniformidade doutrinária, sem diálogo com manifestações culturais e a religiosidade popular (Della Cava, Milagre em Juazeiro, 2014).

Com o aggiornamento proposto pelo Concílio, os ventos da renovação sopraram especialmente na América Latina, marcada por ditaduras civis e militares, ausência de direitos sociais e políticos básicos e extrema desigualdade social. Assim, a Constituição Pastoral Gaudium et Spes, promulgada em 1965, ao tratar da relação entre a Igreja e o mundo contemporâneo, afirma em seu artigo 22:

“Procurem as instituições humanas, privadas ou públicas, servir à dignidade e ao destino do homem, combatendo valorosamente qualquer forma de sujeição política e social e salvaguardando, sob qualquer regime político, os direitos humanos fundamentais.”

É nesse cenário que surge a Teologia da Libertação, tendo como expoentes Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff e Frei Betto. Embora influenciada metodologicamente por elementos marxistas, essa corrente propõe uma releitura da fé cristã com foco no combate à injustiça social, à opressão e à pobreza, buscando a libertação integral do ser humano.


O Início do Ministério em Dobrada

O jovem José Domingos Bragheto, nascido em 1º de agosto de 1949, recebe aos 26 anos, em seu aniversário, a ordenação diaconal e, no mesmo ano, em 20 de dezembro, sua ordenação sacerdotal.

É nesse contexto que ele inicia seu ministério em 1975/1976 na Paróquia São Francisco de Paula, em Dobrada. No Livro Tombo, página 12 verso, volume 2, lê-se:

“Em janeiro de 1976, o senhor Bispo D. José Varani entregou a Paróquia de Dobrada e a capela de Santa Ernestina aos cuidados do Pe. Gabriel Vaz e do Pe. José Domingos Bragheto, o primeiro vigário também da Paróquia Nossa Senhora de Lourdes de Jaboticabal há aproximadamente 10 anos, e o segundo recém-ordenado, natural de Jardinópolis, Arquidiocese de Ribeirão Preto, mas incardinado em Jaboticabal.”

Nas anotações seguintes, o Padre Bragheto já expõe suas preocupações pastorais, afirmando que, até então, pouco havia sido feito além da administração dos sacramentos. Relata participação na Semana Santa, na Campanha da Fraternidade – Caminhando Juntos, além de reuniões de catequese.


As CEBs e a Luta dos Trabalhadores Rurais

Em 1977, começam a se organizar as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o Dízimo e o Grupo de Jovens. Ele também se dedica ao trabalho junto à zona rural da Fazenda Chimbó, organiza o mês das vocações, o mês da Bíblia e, à noite, coordena ensaios da equipe de canto dentro da igreja.

Do Grupo de Jovens Santo Antônio, permanecem até hoje membros atuantes em diversas pastorais, como as senhoras Josefa Cremonese e Maria Monezi. Na organização dos cantos, colaboravam Rubens Rossato, Paulo Durante e Sônia Stinatti. Nas CEBs, destaca-se o trabalho de Élica Maria Rita Bertogna, que também passa a coordenar a catequese.

Em 1978, o Padre Bragheto fixa residência em Dobrada. Seu incentivo à formação de novos catequistas gera frutos: em 1979, duas turmas recebem a Primeira Eucaristia. Nesse período, intensifica seu trabalho junto aos trabalhadores rurais, participando das mobilizações diocesanas do Dia do Trabalho e organizando os boias-frias de Dobrada e Santa Ernestina.

Em 1980, no jornal paroquial A Voz do Povo, denuncia-se a exploração do trabalhador rural:

“Alguns trabalhadores têm falado de seu sofrimento e disseram que os boias-frias precisam ser mais unidos para defender seus interesses. No final da assembleia, foi feita uma proposta: cada cidade presente (Monte Alto, Guariba, Ariranha, Taquaritinga, Barrinha, Dobrada, Santa Ernestina) deveria se reunir por assembleia para, dali a alguns meses, fundarem a Associação dos Trabalhadores Unidos de Dobrada.”

A reação chega com atritos junto à Usina Bonfim e divergências com a prefeitura. Em 3 de maio de 1981, é fundado o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Dobrada, no barracão da igreja.

Bragheto relata seu desejo de manter os trabalhadores integrados às atividades paroquiais, participando das CEBs. Em julho de 1982, passa 15 dias com a Comissão Pastoral da Terra (CPT) para compreender melhor as questões agrárias da região. Pelo envolvimento com a CPT, é processado pelo então deputado estadual Sílvio Martini sob a Lei de Segurança Nacional.


O Desligamento da Paróquia e o Conflito de Guariba

Em 1983, registra no Livro Tombo uma decisão difícil:

“Tive que tomar uma decisão difícil com relação ao trabalho paroquial: deixar de vez a paróquia. Isto se deve ao fato de que a pastoral da Terra vinha me absorvendo cada vez mais em minhas constantes saídas da paróquia para viagens, o que vinha provocando mal-estar em mim e nos paroquianos. Dom Luiz já havia me deixado livre para decidir. Confesso que foi muito difícil, pois há oito anos estou trabalhando aqui.” (Vol. 2, p. 29).

Essa verdadeira confissão revela o carinho que o Padre Bragheto tinha pela paróquia e as transformações que promoveu ao longo de oito anos. Grupos tradicionais, como o Apostolado da Oração e a Legião de Maria, permaneceram, mas novas pastorais trouxeram os ares do Concílio Vaticano II e dos encontros de Medellín e Puebla. As novas pastorais que nasceram foram: Pastoral do Batismo, Catequese, Dízimo, CEBs, Grupo de Casais e, em especial, a Pastoral da Juventude por meio do Grupo de Jovens Santo Antônio, germe do movimento dos trabalhadores rurais de Dobrada.

Em 1984, já em articulação com as Irmãs Carlistas e com atuação junto à CPT, o Padre Bragheto participa do movimento que marcou nacionalmente a história dos trabalhadores rurais: o Conflito de Guariba, iniciado em 15 de maio de 1984. Esse levante transformou as relações de trabalho na região de Ribeirão Preto e trouxe visibilidade a um problema ignorado pelo Ministério do Trabalho.

Nos anos 1970 e 1980, era comum encontrar o Padre Bragheto acompanhando caminhões que transportavam boias-frias em condições precárias ou visitando cortiços onde moravam. Essa vivência lembra a experiência dos Padres Operários na Europa pós-Segunda Guerra, germe da futura JOC, inspirada nos padres Henry Godin e Yves Daniel.

A metodologia ver, julgar e agir, trabalhada por Frei Clodovis Boff, formou lideranças rurais. Como afirma José de Fátima no caderno CEFE’s 5 (Guariba – O povo do campo se levanta, 1985):

“Os passos foram dados pelos próprios trabalhadores, que sentiam a necessidade de se organizar (…) Os trabalhadores assumiram o papel das lideranças.” (p. 11).

O livreto da CPT Guariba e Bebedouro – A luta dos cortadores de cana e apanhadores de laranja registra:

“O povo começou a se reunir na praça da matriz e, como a situação foi ficando séria, fizeram o que tinha que ser feito. Tinha muito trabalhador junto, todos muito revoltados, e a coisa explodiu” (CPT, 1985, p. 11).

Em entrevista a Ricardo Antunes, Paulo Barçote e Robson Oliveira (Ensaio, nº 14, 1984), José de Fátima afirma:

“O Padre Bragheto, de Jaboticabal e da CPT, todas as vezes que há movimento aparece na região. Eu e ele somos os mais marcados.” (p. 182).

Isso dialoga com o que o próprio Padre Bragheto diz ao jornal Alternativa:

“Aqui na diocese foi em 1979 que a gente começou alguns trabalhos com os lavradores, especialmente com os boias-frias (…) Hoje, por exemplo, temos quatro prioridades na diocese, e uma delas é a CPT.” (1982, p. 8).


O Legado

Essa luta leva a um dos momentos mais críticos da vida do padre: seu desligamento da Diocese de Jaboticabal em 1986, quando vai para São Paulo, região da Vila Brasilândia, onde permanece até hoje. A decisão se relaciona — direta ou indiretamente — às ameaças de morte que passou a receber. A Folha de S. Paulo, em 14 de junho de 1987, no artigo “CPT tem lista com 125 ameaçados de morte”, destaca:

“Os 3 padres ameaçados são: João Vander Heytn, José Domingos Bragheto e Luiz Josino.”

Em 1991, o Padre Bragheto passa a atuar na Pastoral Operária em São Paulo. Ele reconhece que, na década de 2000, a Igreja vive um declínio das pastorais sociais, mas insiste que sua esperança o acompanha desde a ordenação, cujo lema é “Esperança sempre”.

Seu trabalho junto aos mais necessitados é a razão pela qual segue construindo sua caminhada, alimentando uma utopia que o impulsiona a transformar a realidade possível. Em Dobrada, sua atuação marcou profundamente a formação de lideranças sociais, como Valditudes de Barros Pinto, o Ratinho, e Zenaide Porssani.

Como padre da minha Primeira Comunhão, posso afirmar que nos iniciou na formação para sermos cristãos críticos diante da injustiça social. Minha própria escolha profissional reflete sua influência, desde minha infância e adolescência na paróquia.

Acompanhar a greve de Guariba, conhecer a vida dos trabalhadores rurais e testemunhar tragédias, como o acidente que tirou a vida da catequista Maria do Carmo Barbosa, deixaram marcas profundas. Recordo a caminhada do Padre Bragheto até o cemitério em seu cortejo, num verdadeiro protesto silencioso contra a exploração do trabalhador.

Em suas homilias e nas celebrações da Semana Santa, especialmente nas pregações da Sexta-feira Santa e na procissão do encontro do Cristo Ressuscitado com Maria, no sábado de Aleluia, sentíamos sua força em conciliar tradição e renovação.

Padre Bragheto nunca deixou de realizar a tradicional Procissão de Corpus Christi, chamada “procissão das folhas”, no centro de Dobrada, nem de ministrar as três bênçãos do Santíssimo nos altares da família Scabello, no bazar da família Bazaglia e na casa da Senhora Elia Formigone.

Pelos alto-falantes da paróquia, suas mensagens em defesa da vida mobilizaram a população de Dobrada e Santa Ernestina para construir as Vilas Noberto e Vanessa. Essas ações, unidas às orações, nos apresentaram mártires dos tempos atuais — Santo Dias da Silva, Dom Oscar Romero, Padre Josimo — cujos exemplos moldaram a juventude dos anos 1980 em nosso desejo de um mundo e de uma cidade mais justa.

Nestes 50 anos de sacerdócio, cuja época de ouro certamente se deu na Diocese de Jaboticabal, especialmente em Dobrada e Santa Ernestina, celebremos sua trajetória como fonte de alento e força. Que “Resistência e Teimosia”, título de seu livro, seja, como diz Marilena Chaui, a possibilidade de resistência como caminho para a transformação social e para o desmascaramento da realidade que ainda oprime tantos.

 Paulo César Cedran,
é Mestre em Sociologia e Doutor em Educação Escolar.

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