A Democracia Não Tira Férias: Um Diálogo Sobre Voto e Voz

Muitas vezes, caro leitor, temos a impressão de que a democracia é um evento sazonal, como uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada, que ocorre a cada dois anos. Vamos até a urna, digitamos alguns números, ouvimos o barulhinho confirmatório e voltamos para casa com a sensação de dever cumprido. Mas será que isso basta?

Ao longo dos últimos anos, analisando a vida pública, convido você a refletir comigo: a democracia termina quando a contagem dos votos se encerra, ou é exatamente ali que ela deveria começar?

Para entendermos esse dilema, precisamos visitar dois conceitos fundamentais que sustentam (ou deveriam sustentar) a nossa sociedade: a Democracia Representativa e a Democracia Participativa.

A primeira, a Representativa, é aquela com a qual estamos mais habituados. É um mecanismo de gestão de escala. Como não podemos todos nós, milhões de brasileiros, nos reunirmos em uma praça pública para decidir se uma rua deve ser asfaltada ou qual será a meta de inflação, delegamos esse poder. Escolhemos vereadores, prefeitos e deputados para tomarem essas decisões em nosso nome. É a democracia da eficiência logística.

Mas aqui faço uma pausa e lanço uma pergunta difícil: você se lembra, com clareza, em quem votou para vereador na última eleição? E mais importante: você sabe como esse representante tem votado nos projetos da Câmara da sua cidade?

Se a resposta for “não” ou um silêncio hesitante, teremos identificado o primeiro sintoma de falha no sistema. A Democracia Representativa depende da confiança, mas também da vigilância. Sem o seu olhar atento, o mandato se descola da realidade e o representante passa a atuar em causa própria, esquecendo-se da origem de seu poder: você.

É para curar essa falha que precisamos, desesperadamente, da Democracia Participativa. Se a Representativa é o “voto”, a Participativa é a “voz” contínua. Ela não espera outubro chegar. O conceito aqui é a intervenção direta do cidadão na coisa pública. E não pense que isso é utopia, leitor amigo. No nosso dia a dia, ela está (ou deveria estar) presente nos Conselhos Municipais (de Saúde, de Educação, da Juventude, por exemplo), nas audiências públicas para definir o orçamento da cidade e nas associações de bairro.

A Democracia Participativa é o momento em que o cidadão deixa a arquibancada e entra em campo. Eu pergunto a você: quando foi a última vez que você participou de uma reunião de conselho no seu bairro ou na sua cidade? A ausência desses espaços ou o nosso esvaziamento deles gera um silêncio perigoso.

A falta dessas duas democracias trabalhando em sintonia gera o cenário que infelizmente conhecemos bem. Quando a Democracia Representativa falha, abrimos as portas para o autoritarismo e para a descrença nas instituições. Mas quando a Democracia Participativa falta, o resultado é o cinismo e a apatia. O político se isola em gabinetes refrigerados, insensível às dores reais da rua, e o cidadão se torna um reclamante passivo, que apenas critica, mas não constrói.

Portanto, encerro este texto não com uma resposta pronta, mas com um convite. A democracia plena é um exercício de tensão e simbiose. Precisamos de representantes que honrem os cargos, sim, mas precisamos ainda mais de cidadãos que ocupem os espaços.

A política não é um lugar sujo se nós, pessoas comuns e bem-intencionadas, estivermos lá para limpá-la. Nos próximos dias, que tal descobrir onde e quando se reúne o conselho do seu bairro? A democracia agradece a sua participação!

Murillo Trevisanello Pinotti,
é administrador Público formado pela UNESP/AraraquaraDiretor Geral do Grupo Pró-Estudar (Matão)Professor de Geografia e Atualidades

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