“A Plenos Pulmões”

Não disfarço a alegria de todos os anos, nesta época natalina, ter a oportunidade de compartilhar algumas linhas de saudade alegre com nossa gente querida de Matão.
Um rincão que está em todos os lugares pelos quais ando — física ou virtualmente.
Nosso elo afetivo (não disfarço também) é o movimento social MMV (Matão Mais Verde).
Neste ano, surgiu mais um elo ecológico e de preservação da saúde.

Pesquisando aqui e acolá pela rede, deparei-me com a grandiúva, periquiteira (Trema micrantha), com vibrantes e reconhecidas propriedades ecológicas. Alimenta os nossos amigos alados (periquitos e outros), que, por sua vez, são dispersores de sementes (não só da periquiteira, como de quaisquer outras, que eliminam após o processo digestório). De rápido crescimento, é uma árvore arbustiva nativa, excelente para reflorestar áreas degradadas.

O Matão Mais Verde, sempre atento, no plantio de novembro p.p., deu então berço a algumas mudas de periquiteira.
Essa árvore tem sido, há alguns anos, objeto de pesquisas na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pois contém em suas folhas uma molécula, o CBD (Canabidiol), utilizado no tratamento de epilepsias de difícil controle.

O CBD é mais comumente encontrado em plantas do gênero Cannabis. Mas a diferença principal entre a Trema e a Cannabis é que na primeira não há o menor resquício do psicoativo THC (Tetraidrocanabinol), substância que altera o sistema nervoso central, causa dependência, é associada a esquizofrenia, depressão, ansiedade, ideação suicida, acidentes de trânsito, absenteísmo no trabalho, violência interpessoal, síndrome amotivacional, déficit de atenção, concentração e memória, rebaixamento de Q.I., câncer (inclusive nos testículos), hiperêmese (quadro clínico de fortíssimos enjoos e mal-estar) e diversos males respiratórios (quando a utilização da droga é na forma de cigarro, cachimbo ou qualquer outro tipo de fumígeno).

Infelizmente, a periquiteira vive escanteada; não se lhe fez até hoje uma feira internacional, algum movimento na mass media ou um projeto de lei. Quiçá porque não “dá barato”, não causa dependência e não escraviza cérebros em formação.

Em relação à Cannabis, há um verdadeiro tsunami de marketing — sendo até anunciada como a “nova soja” para o agronegócio. Termos com forte apelo mercadológico, Cannabis (ou maconha) medicinal e Cannabis industrial ganham as páginas eletrônicas da grande mídia.

Sem nenhum fundamento científico, com sincero respeito. Alguém já viu plaquinha, na banca de frutas, de “banana medicinal” (porque contém triptofano, essencial à produção de serotonina — o hormônio do bem-estar)?

Aliás, por que não se investir no nosso CBD nativo da periquiteira, antes de se enredar em projetos nefastos, como o PL (Projeto de Lei) 399/15 — que, se aprovado, permitirá, pasme!, o THC na lancheira escolar e na papinha do bebê? Por que gastar o dinheiro naquilo que não é alimento de verdade, esquecendo-se a partilha que vem da “casa do pão”?
Não vai muito longe o tempo em que até Papai Noel anunciava cigarro e se prescrevia nicotina como “ansiolítico” para gestantes e nutrizes.

O THC (o “novo” tabaco?) está presente, além dos produtos fumígenos (cigarros convencionais ou eletrônicos, friso), em comestíveis ou bebidas — com nítido apelo infantojuvenil, intoxicando crianças de tenra idade.

O desafio — para um ano renovado em esperança — é cuidar do meio ambiente externo e da ecologia cerebral (interna), tratando remédio com “cara” e gosto de remédio, avançando-se em pesquisas sem conflitos de interesses; e promover, a cada dia que passa, ambientes urbanos seguros e saudáveis, sem a “cultura da fumaça”.

Como seriam bem-vindas edições de leis (nos 5570 municípios do país) proibindo o uso de qualquer tipo de substância fumígena em praças desportivas, parques públicos e demais áreas de lazer. São iniciativas “smoke free” — incentivadas pela Organização Mundial de Saúde e pela PECT (Política Estadual de Controle do Tabaco), dentre outras valorosas instituições ou políticas públicas. Poucos sabem, mas o Ibirapuera paulistano é 100% livre de fumígenos desde 2019.

O Matão Mais Verde — e todos os demais apaixonados pela vida — há quase vinte anos vêm dotando a cidade de espaços de relevância ambiental inigualável, porque a cada criança que nasce, uma nova árvore é plantada neste solo belo e gentil.
Espaços prontos para que neles se possa “respirar em família”, na paz da sobriedade e a plenos pulmões.

Guilherme Athayde Ribeiro Franco,
é Promotor de Justiça em Campinas, nascido em São Paulo, criado em Iguape e cidadão matonense. Especialista em Dependência Química pela UNIAD/UNIFESP.

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