A Inteligência Artificial no Cotidiano: do Impacto ao Convívio Natural

A presença da inteligência artificial no cotidiano já não pode ser tratada como uma novidade futurista ou inalcançável. Em 2025, ela se consolidou como parte orgânica da vida contemporânea, ocupando espaços antes restritos à capacidade humana e ampliando horizontes de produtividade, análise e tomada de decisão. Assistentes digitais, sistemas autônomos, algoritmos de aprendizagem contínua e dispositivos inteligentes já não surpreendem; ao contrário, integram o dia a dia com uma naturalidade quase imperceptível, alguns com versões gratuitas e que tentaram popularizar algo que parecia ser somente para uma elite. A inovação tecnológica, portanto, não apenas evolui — ela redefine, com rigor e velocidade, aquilo que entendemos como cotidiano, como foi a internet nos anos 90.
No entanto, ao mesmo tempo em que celebramos os avanços das IAs, surge uma reflexão inevitável, pelo menos para mim: até que ponto a eficiência tecnológica pode coexistir de maneira saudável com a essência humana? Será que delegar tantas funções às máquinas pode, em algum nível, nos afastar uns dos outros? É curioso como, diante de tanta conectividade digital, por vezes, nos percebemos menos conectados emocionalmente. Quem nunca se perguntou, diante de uma conversa por vídeo: “Será que eu sentiria a mesma coisa se estivesse olhando nos olhos dessa pessoa?” Ela une uma pessoa no Brasil a uma da China em tempo real, mas e a conexão, é a mesma? A profundidade dela, é a mesma?
A inovação tecnológica é indispensável, essencial e pode nos levar a lugares que a internet permitiu também quando ela era uma inovação. Mas o quanto ela deve ser usada e em que situações, estamos preparados? Fica uma dúvida. Ela permite diagnósticos médicos mais precisos, contudo, devemos confiar isso a ela? Ela otimizou processos industriais, ampliou o acesso à educação e democratizou informações antes inacessíveis, permitiu correlações que antes demoraríamos dias ou meses de estudos e compilações, a serem feitas em segundos ou, no máximo, minutos. As IAs tornaram-se ferramentas estratégicas para empresas, governos, profissionais e estudantes, impulsionando a tomada de decisão e permitindo níveis de análise impossíveis há poucos anos. Quem não usa ou acha que só existe o ChatGPT, não sabe que ele é somente o mais popular, mas não o mais indicado para tudo, pois temos outras IAs especializadas em cada área ou situação. Mas, como em toda revolução, há uma dimensão crítica que não pode ser negligenciada: a manutenção do contato humano e como o humano está se integrando à máquina.
Em um mundo onde algoritmos previnem erros, antecipam necessidades e nos ajudam a organizar tarefas, a pergunta que ecoa é simples, porém profunda: “Quem cuida daquilo que não se mede, não se calcula e não se programa?” Nós. As máquinas podem imitar padrões de linguagem, mas não replicam o calor de uma presença, a troca de uma experiência vivida, não sentem a emoção dessa vivência e seus pormenores. Elas podem traduzir emoções, mas não as sentem. Podem identificar comportamentos, mas não compreendem histórias pessoais, memórias afetivas ou nuances invisíveis aos dados. A IA é brilhante, funcional, rápida — mas não é humana.
E é justamente por isso que o contato face a face permanece insubstituível. O diálogo presencial oferece camadas de interpretação que nenhuma tecnologia consegue captar integralmente: o tom de voz que oscila, o sorriso que surge espontaneamente, o silêncio que comunica mais que palavras, o gesto sutil que revela intenções ocultas. Em uma era de avanços extraordinários, lembrar-se do valor da presença é um gesto de resistência emocional e, sobretudo, uma necessidade social.
Como educadores, líderes, profissionais e cidadãos, somos continuamente convidados a refletir: “Será que estamos usando a tecnologia como ponte ou como muro?” Essa pergunta incomoda — e é justamente por isso que ela importa. A IA deve ser aliada, meio, não substituta, ou fim; amplificadora, não usurpadora. Ela deve facilitar o trabalho humano, não reduzir sua relevância. A inovação tecnológica precisa caminhar lado a lado com a valorização das relações humanas. E como iremos tratar os milhares de empregos que serão substituídos por ferramentas de IA?
É possível — e desejável — equilibrar os dois mundos. A eficiência da IA combinada com a empatia humana forma um modelo de sociedade sólido, ético e sustentável. Mas esse equilíbrio só se realiza quando lembramos que a tecnologia existe para servir às pessoas, e não o contrário. Afinal, de que valeria uma sociedade altamente automatizada se nos tornássemos emocionalmente automatizados também? Não estaríamos, nesse caso, perdendo justamente aquilo que nos torna únicos?
Ao final, permanece uma certeza incontornável: somos nós, seres humanos, o cerne da discussão. A tecnologia avança porque nós a impulsionamos, e ela faz sentido apenas quando nos beneficia, nos potencializa. A inteligência artificial, com toda sua sofisticação, é complementar — jamais substitutiva de nossa humanidade. Continuamos sendo o que importa, porque é no encontro entre pessoas que se constrói significado, afeto, propósito e comunidade.
Assim, enquanto celebramos as conquistas da IA e abraçamos suas possibilidades, precisamos manter em foco aquilo que nenhuma inovação será capaz de replicar: a profundidade das relações humanas e o valor insubstituível do contato face a face. Elevamos máquinas, mas é a nós mesmos que devemos preservar. Afinal, no centro de qualquer avanço, progresso ou mudança, sempre estará o mesmo protagonista: o ser humano.

Eduardo Fernandes Junior,
é mestre em Administração pela UNESP, com foco em gestão estratégica e cadeias agroindustriais, possui MBA em Governança Cooperativa pela FGV e formação pelo IBGC para atuação em conselhos. Atua como Conselheiro Fiscal do Sicredi S/A, gestor administrativo das empresas Modertech e Techmoder Ltda, empreendedor no setor de franquias com très unidades Chilli Beans, além de consultor financeiro para PMEs e professor nas áreas de administração e engenharia. Ao longo da carreira, acumulou experiência em bancos, multinacionais e escritório de contabilidade. Também participa de ações voluntarias, como vice presidente da ACE e ministrando aulas e palestras em cursinhos populares.