Semi-inteligente e/ou Semi-artificial?

Fim de ano é sempre um momento propício para revisitar previsões, fazer balanços e tentar entender o que acertamos ou não durante o ano. Em meu artigo “Retrovisor e Para-brisa Turvos: O Que Esperar de 2025”, comentei sobre a complexidade do cenário econômico e destaquei que, embora o mundo estivesse entrando numa rota de corte de juros, muito da trajetória da nossa taxa básica dependeria das sinalizações de comprometimento fiscal do governo. Afirmei que provavelmente veríamos um prolongamento do ciclo de juros altos, e foi exatamente o que ocorreu.
Também ressaltei que, além do “dever de casa” fiscal, nossa trajetória dependeria do comportamento dos juros nos EUA. Isso, de fato, influenciou o Banco Central, mas o elemento mais determinante acabou sendo a tardia visibilidade (e ainda discutível) da possibilidade de ficarmos dentro do teto da meta de inflação, o que reduziu o espaço para cortes em nossa taxa básica de juros. No campo político, seguimos em um cenário que descrevi anteriormente como um modus operandi kayfabe, operando num moto-contínuo tropical — analogias e termos que explico no artigo de fim de ano publicado em 2024.
Liste, à época, uma série de preocupações: o aumento da relação dívida/PIB, o avanço das recuperações judiciais e a expectativa de que, em algum momento, nossa política fiscal fosse capaz de sinalizar dias melhores. Não repetirei aqui todos os dados, até porque pouco mudou de lá para cá. Continuamos sendo o “aluno nota 5” tentando regressar à média, uma média que costuma se impor apenas nos momentos mais drásticos. E seguimos sem aprender, de fato, com nossa longa herança de irresponsabilidade fiscal.
No geral, “minhas” previsões não se desviaram muito da realidade, tampouco destoaram da visão de quem trabalha com o mercado de capitais e precisa acompanhar a economia diariamente, como é o meu caso. Talvez justamente por isso me propus, agora, a provocar uma reflexão diferente. Não que meu texto anterior tenha sido inútil, mas qualquer leitura de um punhado de matérias do Valor Econômico ou de cartas de grandes bancos e gestoras de recursos revelaria que minha opinião estava bem alinhada ao consenso. E, historicamente, um ano é uma janela curta para grandes transformações macroeconômicas. Ainda assim, em doze meses, algo mudou profundamente a vida de todos nós.
Por isso, decidi abordar brevemente (no limite da profundidade que domino o tema: quase nula) um assunto que realmente provoque reflexão — e que, de certa forma, se conecta com o que tenho dito sobre economia: a Inteligência Artificial (IA).
A IA e o Consenso de Mercado
Pedi à IA algumas “previsões pessoais” sobre a economia brasileira em 2026. A resposta foi algo como: “Se tudo correr com estabilidade (inflação sob controle, juros caindo gradualmente, ambiente externo razoável), acredito que: i) o PIB deve crescer entre 1,8% e 2,2%; ii) a inflação tende a convergir para a meta, abrindo caminho para redução da Selic; iii) o mercado de trabalho e o consumo devem permanecer estáveis ou com leve melhora — suficientes para evitar crise, mas insuficientes para gerar um boom; iv) qualquer aceleração real dependerá de reformas estruturais ou políticas públicas bem executadas. Sem isso, o crescimento tende a ser modesto e constante.”
Não sei extrair todo o potencial da ferramenta, e certamente ela foi por um caminho mais otimista do que o esperado, mas perceba: ela reproduz, essencialmente, algo próximo do consenso de mercado. Seu valor não está em perguntas amplas e genéricas, mas na capacidade de testar premissas, construir modelos, manipular dados e simular cenários. Quando peço “perspectivas para 2026” de forma genérica, a IA me devolve algo que eu mesmo diria. Talvez porque consumimos — eu e ela — o mesmo repertório informacional.
Esse recorte generalista é estreito demais para irmos a fundo — afinal, falar de economia e tecnologia raramente está entre nossos temas de predileção ou entre os títulos mais cobiçados nas prateleiras. Ainda assim, com o pouco exposto, quero deixar uma provocação: nossas opiniões estão se tornando, ou talvez sempre foram, semi-inteligentes e/ou semi-artificiais?
Convite à Reflexão Humana
Em 2026, não deixarei previsões. Provavelmente eu as erraria ou, no máximo, entregaria ao leitor a média do pensamento dominante no mercado. Em vez disso, deixo um convite:
- Como pensar de forma mais inteligente e menos artificial em 2026?
- Você tem realmente pensado por conta própria, ou apenas replicado o pensamento de manada?
- Como podemos cultivar inteligência — humana — para enfrentar nossos problemas locais e nacionais com criatividade, eficiência, profundidade e responsabilidade?
Essa resposta, ao contrário das outras, nenhuma IA será capaz de nos dar. Ela depende de algo que ainda é, e talvez sempre será, exclusivamente nosso: a capacidade de pensar com propósito, empatia e autonomia.
Desejo um feliz 2026 e que seja um ano em que sejamos mais inteligentes, menos artificiais e, acima de tudo, mais humanos.
*Este artigo contém informações geradas por IA.

William Innocêncio da Costa,
é Bacharel em Administração de Empresas pela UNESP Analista de Estruturação de Dívidas em Mercado de Capitais Especialista em Investimentos certificado pela ANBIMA