Atravessar, Atravessar-se: Um Juízo a Respeito da Finitude
Tudo o que fui já não me veste mais.
Esse dito, a agregar à filosofia de Heráclito uma linguagem literária, persiste em minha memória como se estivesse em minha carne; produz, sozinho, a lembrança — ou a resignação — de que a substância, física ou imaterial, transita pela realidade e pela irrealidade de nossos pensamentos. A recordação de que o ser virá a não mais ser.
É dezembro. E, nesse tempo, com frequência, o reflexo do nosso espelho revela o que somos em comparação ao que desejávamos ser. Inevitavelmente, examinamos as faltas e as sobras do que planejávamos para o fim do ano; afinal, mesmo que simbolicamente, representa-se o encerramento de um ciclo, embora este seja artificialmente criado.
Uma vez exposta a finitude, indaga-se: o que fazer quando algo não existe mais?
Luc Ferry, filósofo francês, assevera — e há-se de com ele concordar — que todas as maneiras de extinção, a que se expõe o homem, são uma forma de morte em vida. Morre-se enquanto vivo várias vezes, canso de repeti-lo. Não por acaso, é comum que vejamos pessoas se debruçarem no sofrimento que o luto provoca de uma maneira que parece infindável. Assemelha-se isso a um afogamento em que não há socorro. Aliás, por vezes, o próprio ser submerso recusa o salvamento, em nome de manter-se em contato direto com o fim que se nega a aceitar. Literariamente, esse cenário é um sinal de que a precitada pessoa não é ainda capaz de renascer da consumação a que está sujeitada. Psicanaliticamente, trata-se de um processo artístico da nossa libido, que precisa encontrar ou mesmo inventar um novo objeto para pousar. Cada ser desenha seu próprio quadro, de tal modo que é quase inútil propor uma solução às tantas faces de enlutamento existentes.
Acredito ser imperativo sugerir, ao menos, que não se olhe o reflexo do espelho em função da falta. Repare: há nisso um sujeito que olha.
Hoje me é claro que a perda da abstração e da imaterialização que o cotidiano causa acarreta uma forma de cegueira, pois nos torna incapazes de ver o lado diminuto da vida. O pormenor em que se encontram algumas profundezas e outros segredos. Partes pequenas que dão sentido ao todo. Carrego uma crença quase mágica, a beirar o terreno infantil das ideias, de que a existência é eternamente bela, a depender da lente por meio de que analisamos a realidade.
O real inexiste. Somos nós a realidade. O real é o sujeito, não o fato. Mas voltemos.
É rotineiro que as pessoas se apeguem ao lado mágico, como uma muleta sem a qual definhariam: “Era para ser assim”, “Deus tem um plano melhor para mim”, “O universo…”. Nada de errado ou de inferior se expressa nisso. Deveras, não existem Zaratustras…
Penso, porém, que o universo não está certo nem errado. Ele apenas está. Seus movimentos de acaso são completamente indiferentes ao todo e à Terra, sobretudo. Não imagino dois átomos de hidrogênio com um de oxigênio se preocupando com os sofrimentos de um tal João, da cidade de Pitangueiras…
Mas que se note, neste pormenor, a cura: o domínio da narrativa pertence ao sujeito. Se o fim ocorre por tal ou qual motivo, a nós é dado definir-lhe o sentido. E isso enseja, invariavelmente, a necessidade de sermos soberanos de nossa própria existência. Em posse do porquê, enfrentamos qualquer como.
Valho-me de Drummond para encerrar este escrito.
Palavras duras, ditas em voz mansa, te golpearam. Nunca, nunca cicatrizam. Mas e o humor? A injustiça não se resolve. À sombra do mundo errado. Murmuraste um protesto tímido. Mas virão outros. Tudo somado, devias precipitar-te, de vez, nas águas. Estás nu na areia, no vento. Mas a vida não se perdeu. O primeiro amor passou. O segundo amor passou. O terceiro amor passou. Mas o coração continua (Consolo na praia).
Seria essa a ordem correta do poema?

Marcos Faggionato Andrioli,
é Advogado especialista em Direito Processual Civil.