Um Conto de Natal
À medida que a cidade vai ganhando o brilho das luzes de Natal, meus olhos também ganham um brilho especial. Esse brilho vem das recordações dos Natais que já se foram há muito tempo, num tempo que, certamente, só quem já passou da terceira década vai se recordar.
Naquela época, não tínhamos guloseimas à vontade, tampouco idas frequentes aos shoppings centers como temos na atualidade. Assim, restava-nos esperar o mês de dezembro para sairmos da monotonia da infância. Ah, e como valia a pena essa espera!
Nas noites de dezembro, não havia uma só criança que escondesse o sorriso e o brilho nos olhos ao passar em frente às vitrines do Bazar Santo Antônio, na Rua Rui Barbosa. Ali, os sonhos de muitas crianças se tornavam realidade ao ganharem o tão sonhado presente de Natal. As meninas se encantavam com as bonecas e os meninos com as bicicletas, iguais às vistas e sonhadas nos comerciais da televisão.
O nosso Conto de Natal era dividido em dois atos. O segundo ato era a “Feira da Bondade”, feita em prol da APAE, onde podíamos nos deliciar com magníficas iguarias, tais como: cachorros-quentes, cocadas, acarajés, entre outras guloseimas, como os pirulitos de chocolate caseiro com flocos de arroz. Aliás, foi ali na Feira da Bondade que descobri, na autoridade dos meus oito anos de idade, que não se deve pedir acarajé “quente” para a baiana.
Mas assim como as luzes de Natal se apagam nas primeiras semanas de janeiro, essas memórias ficam cada dia mais esfumaçadas em nossa mente, fazendo-nos compreender por que sentimos cada vez mais saudades de Matão.

Jorge Innocêncio da Costa,
é advogado, escritor e consultor com atuação reconhecida no Brasil e no exterior. Especialista em Propriedade Industrial pela WIPO (Organização Mundial da Propriedade Intelectual) de Genebra e pela Universidade Federal de Santa Catarina, Jorge é autor de livros, palestrante em universidades e instituições de classe, além de perito judicial e parecerista em casos de alta complexidade.